domingo, 3 de outubro de 2010

Gélido, escuro, livre.

Uma noite escura e gelada batia contra a janela, dentro de casa estava quente. Aconchego porém que não a agradava, não a fazia sentir-se. Aquelas calçadas sinuosas, o vento gélido cortantando o peito, a fina garoa, linda quando vista contra a luz fraca dos postes, indo de encontro a seu rosto, a solidão das ruas mal iluminadas que lhe permitia andar de olhos cerrados - isso tudo a fazia sentir-se viva. A noite na cidade adormecida a deixa respirar fundo, encher os pulmões de ar úmido e frio e expirar junto seus pensamentos. É quando todos se escondem (da chuva, do frio, das ruas escuras) que ela pode mostrar-se e, enfim, sentir-se. Fatídica cina dos esquisitos, esconder-se nas sombras. Mas a normalidade é algo estranho, e assustador, até onde eu sei - o que não é muito. Parece insano ser normal e agradar a todos, até um tanto desumano. Eu não sei, mas acho que todos se perguntam se todos realmente são tão normais quanto parecem. Porque sinceramente, parece impossivel fazer tudo tão normalmente, e então todos fingem, e quando podem soltam-se - ou não. Ela soltava-se assim: sozinha, gelada, no escuro. Mas é linda a penumbra na cidade, o jeito que a pouca luz incide sobre as pedras tortas da calçada, as formas que as sombras alongadas formam, o brilho do asfalto molhado, tirando alguns ratos que cruzam o caminho, tudo tem um certo ar de glamour. Ela brinca com a fumaça de seu cigarro, que hora se vê, hora não, como tantas outras coisas em um esconde-esconde. Quando as luzes das casas se apagam e a correria do dia cessa a cidade respira, como ela - tomam folego para a próxima maratona de normalidades formais. Quando ouve o primeiro canto dos passarinhos a cidade começa a despertar, adquirir suas cores naturais - sinal que acabou. Cantos que soam a ela como sirenes na prisão, avisando que acabou o tempo livre, que é hora de voltar à cela, hora de deixar de ser humana, deixar de sentir, parecer quase normal - ou só um pouco estranha - qualquer coisa que não assuste as pessoas, mas que a façam manter alguma distância. Voltando para casa seu rosto aproveita os ultimos instantes daquele sereno gelando-o, seus pés sentem contra eles as últimas pedras tortas e escorregadias e do cérebro saem os últimos pensamentos velhos. Pronto, agora entra em casa e pode sentar, tomar um café, um banho quente, escrever algo, ou desenhar - está leve, sente-se. A única coisa que preocupa-a é quando será aproxima noite gelada e assustadora, até lá não sentirá, sabe que vai crescer dentro dela a dúvida de realmente ser viva, de realmente ser humana, de realmente existir - só poderia mesmo, vivendo em uma camisa de força, trancafiada em um hospício de pessoas sãs.

Nenhum comentário:

Postar um comentário