quarta-feira, 26 de maio de 2010

[em branco]

O incerto é tão mais belo, tão mais provocante. Antes medo que monotonia, antes correr riscos que riscá-los da vida. Esta história de com certeza irá dar certo é tão pouco atrativa, chega a ser redundante. Faltam as interrogações, os poréns, a malícia manipuladora da dúvida. A certeza é sólida, imutável, imóvel, onde está a graça em saber o fim logo de início? Nínguém quer saber o final do livro antes de passar pelo clímax. É bom não saber de nada, pode-se inventar tudo, e reinventar tudo denovo, denovo e denovo. Aquele frio na barriga, aquela sensação de que tudo pode dar errado, de não saber pra onde vai, sem planos. No meio do caminhos pistas espalhadas, algumas delas falsas, todas obscuras, como uma charada em que toda resposta é uma nova charada. Sim, isso provoca, torna o ser instintivo e faz querer sempre mais. O certo é uma linha reta, com início e chegada predefinidos, sem desvios no meio do caminho, sem mudanças de rota, tédio. Já a dúvida é frenética, vai e vens de pensamentos e mais pensamentos fluindo, girando, correndo, caindo, voltando, evaporando, gritando, indo, voando, surgindo - entorpeçendo. Viver do pré-definido é medíocre, e mais assustador que não saber, é angustiante, sufocante. A incerteza traz certa paz.

Biografia Mínima:

Vento

P.s.: Porque o vento vai onde quer mas pode voltar a qualquer hora, ele está sempre em movimento. O vento é leve mas imponente, sutilmente, consegue com que todos façam o que deseja sem que percebam. Ele pode ser brando e furioso, acalmar e amedrontar, pode te tirar algo mas pode te trazer tudo. Mas principalmente o vento porque ninguém pode prendê-lo, mesmo que se tente, jamais será possível o manter no mesmo lugar - mesmo que pareça fácil-, se aprisioná-lo ele deixa de ser vento, porque na sua essência o vento é livre, e é somente assim que ele existe. Ninguém o possui, ninguém o tem nas mãos por mais que alguns rápidos instantes. Mesmo sem pertencer a ninguém ele é de todos, a todo instante e não se envaidece diante de tamanha complexidade, continua a ser simplesmente o vento.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

auto-ilusão

Ter a confiança de alguém pode ser muito inconveniente, afinal é servir de apoio a alguém sem nem sequer ser questionado antes sobre o encargo, pois diversas vezes conquistamos confianças alheias sem jamais ter tido esta intenção, logo vem uma série de exigências, como se nós fossemos culpados e devêssemos assumir tal responsabilidade. Quando se confia em alguém é bom que se comunique o quanto de fé está sendo depositada no sujeito, para evitar desapontamentos, embora na maioria vezes eles sejam inevitáveis. Criar expectativas sobre os outros é como construir-se na vida deles sem seu consentimento, ninguém o deveria fazer. Ainda mais quando creio que ninguém é digno de confiança, nem nós mesmos devíamos nos confiar. Eu não me confio, não me asseguro, como poderia se mal me conheço, se mal sei se levantarei amanhã. Confiança é a maneira que as pessoas arranjaram para dividirem o peso da vida, jogá-lo nas costas de alguém, e ainda ter um lugar para apoiar-se, porque se alguma coisa deu errado a culpa sempre é do sujeito que o desapontou, não foi incompetência sua, foi desilusão. Falta de coragem para correr riscos e uma fatídica frase: 'Não devia ter acreditado tanto em você, não merecia minha confiança.' Então por que o fez se ja era fato sabido?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Lentes Cor-de-Rosa

Um sol brilhando, um céu azul. Tudo parece se dissolver mais fácil. A luz que entra sorrateira é capaz de clarear tudo, breve, o nascer do sol pode mudar a historia inteira. O calor brando aquieta os males, o raio que brilha nos olhos enche tudo de cor novamente. A mesma música agora parece extremamente agradável aos ouvidos. Uma atmosfera levemente amarelada faz tudo parecer mais alegre, e um timido sorriso de canto é até capaz de aparecer, assim bem tímido. Se respirar fundo sentirá um ar gélido em seus pulmões, em contraste com a tonalidade quase vermelha lá no horizonte. E até o fim predomina essa sensação, já que as cores da vida adquirem certa saturação.
Mas não podemos esquecer da singela e melancólica beleza dos dias cinzas, que, com uma cor só, se valem de diversas tonalidades para mais timidamente expressarem-se. Como se sentissem vergonha por não poderem ostentar um ciano magnifico, perfeito. Dias cinzas, ao contrário dos ensolarados que já vem rotulados, são como uma folha em branco, aceitam que faça o que queira deles. A cor do pôr-do-sol vai depender da palheta de cores do artista.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cores de Lembranças Futuras

Porém fotos, embora belas, são meros esboços do real sentimento que há por detrás delas. maneiras que temos de voltar por breves instantes no tempo.

Fotos, todos tem fotos, todos olham fotos, todos.
Pedaços, ínfimos, do que sobrou de algum momento. Toda vez que as olho embarco em uma viagem, elas sempre vem junto com algum gosto na boca, ou um cheiro na ponta dos dedos, palavras ditas, um sentimento adormecido. As imagens de um passado, distante ou recente, mas passado, sempre belo aos olhos do presente. Melancolia domina o ser. Mesmo quando as fotos não dizem respeito ao seu passado, são sempre a história de alguém, as dores de alguém, as conquistas. É como se guardássemos fisicamente uma parte de nossos pensamentos, diante delas não é mais impossível impregnar um papel com sentimentos. Fotos são amigos, amores, é possivel perder-se meio a elas, é possivel não sentir-se só quando junto delas, mas não se pode viver delas. E se tirássemos fotos do futuro, será que viriam carregadas de emoções também? Mire longe e ouça o som do obturador, descubra sentimentos de uma "lembrança futura", talvez. Mas acho que se pudessemos tirar uma foto do futuro seria como uma dessas de máquinas polaróides, preta no início, não faria sentido algum, iria se revelando aos poucos, ganhando algumas cores, algumas formas, até que se chegasse ao fim: uma imagem, não necessariamente a que esperávamos - não, assim, é a vida?


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Introspecção

- Eu quero que você feche a porta, só isso.
Assim como quem diz: tranque seu coração e sua alma pra sempre. E faz isso por medo ou mero capricho, ambos resultam na mesma dor: gotas melindrosas partindo da porta da alma - agora cerrada - e desenhando cuidadosamente as curvas do sofrimento até caírem, finalmente, no mar.
É bom que se prenda a alma certas vezes, fechar portas janelas e cortinas, talvez ela se encontre no escuro, ou talvez definhe só. Porém repetidos estrondos absurdamente altos perturbam este enclausuramento particular, malditos, não entendem que os pensamentos precisam ser aquietados, assim como os pequenos ele tem de adormecer para haver paz. Pede-se silencio absoluto, a alma está de castigo nada de interferências ou divertimentos. Mas toda vez aparece esse grotesco estrondo e os pensamentos despertam com maior vigor, verdadeira algazarra, milhões de vozes estridentes põe-se a exigir razão, tudo isso somado só pode acabar por explodir: portas, janelas, cortinas, paredes e pedaços de alma voam pelos ares.
Parece impossível estar só.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Abismo de surrealidades

Ver, o que é realmente ver, e o que é achar que vemos. Como saber se o que vemos é tudo que existe, ou se tudo que vemos existe?
Mas se querem me entender então primeiro se desprendam deste conceito físico da visão. Para começo de conversa é bom que saiba que o que vemos com os olhos é despresível, sim. O que importa nós só coseguimos enxergar a partir de idéias, conhecimento, e é aí que a grande maioria para, e estes são os primeiros que acham que veem alguma coisa, e saem por aí dizendo imensos absurdos. Segundo: devemos diferenciar o que vemos do que sentimos. É, os sentimentos nos negaceam. Muitos creem que sentir é ver, tolos. Sentir é dom natural proveniente da condição humana, ver é um exercício da mente, é abrir fronteiras - ver além.
Agora sim, fazem sentido as perguntas do inicio. Como ver parte das idéias é preciso cuidado para delimitar sonho e realidade, porque embora haja um abismo monumental entre tais a nossa coragem de pular deste abismo e viver no sonho é fenomenal. Mas é caracteristica de quem enxerga viver sempre no limiar, como se fosse numa corda bamba, e frequentemente são tidos como loucos e desequilibrados - desequilibrados são os que já cairam da tal corda e vivem nos seus mundos preto e branco ou artificialmente rosa. Falta coragem para andarem na beira do precipicio.
Deve ser porque a vontade de se jogar fique muito grande.