quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Par(t)ir

Palavras inexpressivas são meras baforadas de ar traçando o caminho pulmão - garganta - boca - morte. Ideias que perduram são bem mais que movimentos combinados entre língua, boca e pregas vocais, são árduo esforço intelectual. Para surtir efeito as palavras são primeiramente fecundadas no subconsciente, então passam por uma problemática gestação cerebral - é uma gravidez de risco. Tão complicada que poucos fetos completam-na, a maior parte deles sofre aborto espontâneo e nascem prematuramente - certas vezes deformados - poucos, fortes, sobrevivem, os outros não vingam e se vão. As ideias que conseguem completar a gestação acabam bem formadas, mas ainda lhes resta um último desafio: o parto. No momento de pôr os filhos no mundo nada deve atrapalhar, qualquer desvio de atenção pode fazer todo o esforço anterior ir por água abaixo - "dá branco". Atingida toda a concentração necessária, é hora do maior esforço, do suor, das dores do parto. Começam as contracções, a garganta coça, o ar já está dentro dos pulmões, só precisa aparecer a coragem - que não pode demorar muito, pois se o trabalho de parto elongar-se por demais, o rebento morre asfixiado, e tudo que se torna audível ao mundo é um longo suspiro, carregado de emoções, mas com traços pouco perceptíveis de expressividade. Fôlego tomado, a garganta ardendo, coragem, e, enfim, ele vai ao mundo - momento de êxtase, o primeiro contato, um momento de orgulho. Um momento pouco duradouro, as idéias, ao darem seu primeiro suspiro, tomam consciencia da sua existência, que agora independe da do genitor, e decidem tomar rumos próprios. Elas já nascem com asas, e após alguns tombos aprendem a voar -não há nada mais que se possa fazer - logo já estão longe, e não são mais suas.

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