domingo, 24 de outubro de 2010

Dentro de mim o céu é azul

Amassava a grama verde, ainda úmida, com meus pés descalços, podia senti-lá ainda gelada enquanto caminhava sob o sol das primeira horas do dia. Aquela imensidão verde era serena - quase monótona, se não fosse por uma única árvore fincada. Um céu que aos poucos passou de um tom quase violeta para um azul plácido, que agora brilhava imponete, quase competia com os raios do próprio sol. Bastava.
Havia um certo ardor, um calor, proveniente de mim. Não vinha dos outros, não dependia de alguém, só do ato do meu viver. Eu gerava vida, eu me fazia aquecer. Assim então sentia paz, uma serenidade. Somente neste estado é que poderia pensar em colocar algo mais no cenário sem desequilibrar-me, aí sim eu poderia aquecer-me em outro.
Agora estou assim, como a grama, que para quebrar a monotonia, colocou aquela árvore ali, mas sem correr riscos de com isso estragar sua harmonia.

sábado, 23 de outubro de 2010

Um texto medíocre.

Sem nobres ideais, sem a menor intensão de mudar o mundo, sem chance alguma de causar grandes reflexões. Nenhuma construção invejável, nem ao menos um léxico complexo, um texto vazio - em todos os âmbitos. De tão medíocre um texto que foi começado pelo título, justamente por não haver nada de novo - na realidade, nada de nada. Um texto inútil, absolutamente insípido, uma enorme perda de tempo. Nem uma história ele conta, nem um amor, ou desamor - é porque amores nunca são medíocres (pelo menos não enquanto vivemo-los) então não caberiam aqui. Desnecessário, completamente desnecessário. Percebe a circularidade? Mas é óbvio, nem se tem sobre o que desenvolver.
Se um texto medíocre feito em um paragráfo ja lhe cansa, imagine uma vida inteira sensabor.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Ouve

sem ser
sentido
       não há
sem ser tido
                não tem sentido

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Par(t)ir

Palavras inexpressivas são meras baforadas de ar traçando o caminho pulmão - garganta - boca - morte. Ideias que perduram são bem mais que movimentos combinados entre língua, boca e pregas vocais, são árduo esforço intelectual. Para surtir efeito as palavras são primeiramente fecundadas no subconsciente, então passam por uma problemática gestação cerebral - é uma gravidez de risco. Tão complicada que poucos fetos completam-na, a maior parte deles sofre aborto espontâneo e nascem prematuramente - certas vezes deformados - poucos, fortes, sobrevivem, os outros não vingam e se vão. As ideias que conseguem completar a gestação acabam bem formadas, mas ainda lhes resta um último desafio: o parto. No momento de pôr os filhos no mundo nada deve atrapalhar, qualquer desvio de atenção pode fazer todo o esforço anterior ir por água abaixo - "dá branco". Atingida toda a concentração necessária, é hora do maior esforço, do suor, das dores do parto. Começam as contracções, a garganta coça, o ar já está dentro dos pulmões, só precisa aparecer a coragem - que não pode demorar muito, pois se o trabalho de parto elongar-se por demais, o rebento morre asfixiado, e tudo que se torna audível ao mundo é um longo suspiro, carregado de emoções, mas com traços pouco perceptíveis de expressividade. Fôlego tomado, a garganta ardendo, coragem, e, enfim, ele vai ao mundo - momento de êxtase, o primeiro contato, um momento de orgulho. Um momento pouco duradouro, as idéias, ao darem seu primeiro suspiro, tomam consciencia da sua existência, que agora independe da do genitor, e decidem tomar rumos próprios. Elas já nascem com asas, e após alguns tombos aprendem a voar -não há nada mais que se possa fazer - logo já estão longe, e não são mais suas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Movimento Migratório

Voe mais alto, mais longe, cruze os limites. Acenda a luz e saia do escuro. Parar não melhora nada, não faz voltar, não conserta. Quando dizem pra aprender com seus erros não significa que deve prender-se a eles, nem ao dos outros. Erros e mágoas não são inimigos, não são coisas que devam ser apagadas - até porque nem tem como - mas devem ser adormecidos, tornados inertes, e, gradualmente, devolvidos à convivência. As coisas mudam de forma, de tamanho, de valor, todas elas mudam - inclusive o que não queríamos que mudasse- e, as vezes, somos forçados a mudá-las, porque elas já mudaram pra alguém. Impedir a mudança é algo que foge ao nosso controle, mas somos máquinas preparadas para metamorfose, a qualquer instante que desejarmos podemos fazê-la com maestria. Agora, quando tudo parecer muito difícil, voe mais alto, mais longe.

domingo, 3 de outubro de 2010

Gélido, escuro, livre.

Uma noite escura e gelada batia contra a janela, dentro de casa estava quente. Aconchego porém que não a agradava, não a fazia sentir-se. Aquelas calçadas sinuosas, o vento gélido cortantando o peito, a fina garoa, linda quando vista contra a luz fraca dos postes, indo de encontro a seu rosto, a solidão das ruas mal iluminadas que lhe permitia andar de olhos cerrados - isso tudo a fazia sentir-se viva. A noite na cidade adormecida a deixa respirar fundo, encher os pulmões de ar úmido e frio e expirar junto seus pensamentos. É quando todos se escondem (da chuva, do frio, das ruas escuras) que ela pode mostrar-se e, enfim, sentir-se. Fatídica cina dos esquisitos, esconder-se nas sombras. Mas a normalidade é algo estranho, e assustador, até onde eu sei - o que não é muito. Parece insano ser normal e agradar a todos, até um tanto desumano. Eu não sei, mas acho que todos se perguntam se todos realmente são tão normais quanto parecem. Porque sinceramente, parece impossivel fazer tudo tão normalmente, e então todos fingem, e quando podem soltam-se - ou não. Ela soltava-se assim: sozinha, gelada, no escuro. Mas é linda a penumbra na cidade, o jeito que a pouca luz incide sobre as pedras tortas da calçada, as formas que as sombras alongadas formam, o brilho do asfalto molhado, tirando alguns ratos que cruzam o caminho, tudo tem um certo ar de glamour. Ela brinca com a fumaça de seu cigarro, que hora se vê, hora não, como tantas outras coisas em um esconde-esconde. Quando as luzes das casas se apagam e a correria do dia cessa a cidade respira, como ela - tomam folego para a próxima maratona de normalidades formais. Quando ouve o primeiro canto dos passarinhos a cidade começa a despertar, adquirir suas cores naturais - sinal que acabou. Cantos que soam a ela como sirenes na prisão, avisando que acabou o tempo livre, que é hora de voltar à cela, hora de deixar de ser humana, deixar de sentir, parecer quase normal - ou só um pouco estranha - qualquer coisa que não assuste as pessoas, mas que a façam manter alguma distância. Voltando para casa seu rosto aproveita os ultimos instantes daquele sereno gelando-o, seus pés sentem contra eles as últimas pedras tortas e escorregadias e do cérebro saem os últimos pensamentos velhos. Pronto, agora entra em casa e pode sentar, tomar um café, um banho quente, escrever algo, ou desenhar - está leve, sente-se. A única coisa que preocupa-a é quando será aproxima noite gelada e assustadora, até lá não sentirá, sabe que vai crescer dentro dela a dúvida de realmente ser viva, de realmente ser humana, de realmente existir - só poderia mesmo, vivendo em uma camisa de força, trancafiada em um hospício de pessoas sãs.